Emagrecimento
Como emagrecer: perder gordura sem perder músculo
Déficit calórico, ritmo de perda, proteína, treino de força, superávit e sono: o que os estudos mostram para perder gordura e como a CatLena faz as contas.
· 10 min de leitura
Em resumo
- Para perder gordura é preciso gastar mais energia do que você come: é o déficit calórico.
- Perder cerca de 0,5% a 1% do peso por semana preserva mais músculo do que ritmos rápidos.
- Proteína alta e treino de força protegem a massa magra durante o déficit; déficits muito grandes e noites curtas fazem perder mais músculo.
- Na CatLena, a meta de calorias do dia é o seu gasto (base mais treinos) somado ao déficit ou superávit que você escolhe.
Emagrecer, para quem treina, quase nunca é só "baixar o número da balança". O objetivo é perder gordura e manter (ou até ganhar) músculo, sem perder rendimento no treino. Para isso, três coisas pesam mais: o tamanho do déficit calórico, a proteína e o treino de força. O sono vem logo atrás. Este artigo mostra o que os estudos dizem sobre cada uma e como a CatLena transforma isso em metas do dia.
A base: gastar mais do que você come
O corpo usa energia o tempo todo. Quando você come menos do que gasta, a diferença sai das reservas, principalmente da gordura. É o déficit calórico. Quando come mais do que gasta, sobra energia para guardar: é o superávit. O gasto do dia tem partes diferentes:
| Parte do gasto | O que é | Como a CatLena estima |
|---|---|---|
| Basal | Energia para manter o corpo vivo em repouso | Equação de Mifflin-St Jeor (peso, altura, idade e sexo) |
| Digestão | Energia para digerir e processar a comida (5% a 15% do gasto) | Não é calculada à parte: fica dentro do fator da rotina |
| Dia a dia | Andar, ficar em pé, trabalhar, subir escadas | Fator da rotina: 1,2 a 1,7 × basal |
| Exercício | Os treinos | Calorias de cada corrida e treino de força |
A equação de Mifflin-St Jeor foi criada em 1990 a partir de medidas do gasto em repouso de 498 adultos saudáveis, de 19 a 78 anos [1]. A digestão responde por cerca de 5% a 15% do gasto diário numa dieta mista, e a proteína é o nutriente que mais gasta energia para ser processado, à frente do carboidrato e da gordura [2]. O gasto do dia a dia (andar, ficar em pé) muda muito de uma pessoa para outra; por isso a CatLena pergunta a sua rotina.
Quanto de déficit: o ritmo da perda
Um déficit maior faz o peso cair mais rápido, mas uma parte maior do que se perde passa a ser massa magra. Uma revisão de 2014 sobre a preparação de fisiculturistas naturais resume assim: quanto maior o déficit, maior a parte da perda que vem da massa magra, e o risco cresce à medida que a pessoa fica mais magra. A recomendação dos autores é ajustar as calorias para perder cerca de 0,5% a 1% do peso por semana [3].
| Peso atual | Perda por semana (0,5% a 1%) |
|---|---|
| 60 kg | 0,3 a 0,6 kg |
| 70 kg | 0,35 a 0,7 kg |
| 80 kg | 0,4 a 0,8 kg |
| 90 kg | 0,45 a 0,9 kg |
Um estudo com 24 atletas de elite testou isso diretamente [4]. Todos mantiveram quatro treinos de força por semana e foram sorteados para perder peso devagar (0,7% do peso por semana, comendo cerca de 19% menos) ou rápido (1,4% por semana, comendo cerca de 30% menos). Os dois grupos perderam cerca de 5,5% do peso. No grupo lento, a massa magra subiu 2,1% e a gordura caiu 31%. No rápido, a massa magra não mudou e a gordura caiu 21%. O preço do ritmo lento foi o tempo: 8,5 semanas, contra 5,3.
| Garthe 2011 (atletas de elite) | Perda lenta | Perda rápida |
|---|---|---|
| Ritmo | 0,7% do peso por semana | 1,4% do peso por semana |
| Redução da ingestão | cerca de 19% | cerca de 30% |
| Duração | 8,5 semanas | 5,3 semanas |
| Peso | −5,6% | −5,5% |
| Gordura | −31% | −21% |
| Massa magra | +2,1% | sem mudança (−0,2%) |
Quando o déficit é grande demais
- Perda de músculo: como no estudo acima, ritmos rápidos preservam menos massa magra [3][4].
- O corpo passa a gastar menos: em pessoas com sobrepeso, a queda do gasto além do que a perda de peso explicaria variou de 79 a 504 kcal por dia nos estudos revisados [3]. No caso extremo dos participantes do programa de TV "The Biggest Loser", que perderam em média 58 kg, o gasto em repouso seis anos depois ainda estava cerca de 500 kcal por dia abaixo do esperado para o tamanho do corpo, mesmo com a volta de 41 kg em média [5].
- Hormônios: em fisiculturistas naturais em preparação, a testosterona caiu nas primeiras seis semanas de dieta, e essas mudanças parecem ligadas à baixa disponibilidade de energia [3].
- Saúde e desempenho: quando a energia que sobra depois do treino fica baixa demais, por muito tempo, surge a Deficiência Relativa de Energia no Esporte (REDs). O Comitê Olímpico Internacional a descreve como uma síndrome com efeitos ruins para a saúde e para o desempenho, em mulheres e em homens, com ligação também com a saúde mental [6].
Proteína e treino de força
O treino de força é o sinal que diz ao corpo para manter o músculo; a proteína é a matéria-prima. Uma meta-análise de 49 estudos randomizados, com 1.863 pessoas treinando força, mostrou que mais proteína aumentou os ganhos de força e de massa magra. Em média, acima de cerca de 1,6 g por kg de peso por dia não houve ganho extra de massa magra [7]. Esses estudos, porém, não eram em déficit.
Em déficit, a proteína ganha importância. Num estudo com 40 homens jovens, todos comendo cerca de 40% menos do que precisavam e treinando força e tiros intensos seis dias por semana durante quatro semanas, um grupo comeu 2,4 g de proteína por kg por dia e o outro, 1,2 g. O grupo com mais proteína ganhou 1,2 kg de massa magra (contra 0,1 kg) e perdeu 4,8 kg de gordura (contra 3,5 kg) [8].
| Situação | Proteína sugerida | Fonte |
|---|---|---|
| Treino de força, sem déficit | cerca de 1,6 g/kg de peso por dia (acima disso, sem ganho extra em média) | Morton 2018 [7] |
| Ganho de massa (superávit) | 1,6 a 2,2 g/kg de peso por dia | Iraki 2019 [11] |
| Déficit forte com treino intenso | 2,4 g/kg de peso por dia foi melhor que 1,2 g/kg | Longland 2016 [8] |
| Dieta de atletas já magros | 2,3 a 3,1 g/kg de massa magra por dia | Helms 2014 [3] |
Dá para ganhar músculo em déficit?
Às vezes, mas fica mais difícil. Uma meta-análise de 2022 reuniu estudos randomizados de pelo menos três semanas com treino de força, comparando pessoas em déficit com pessoas sem déficit [9]. Em déficit, o ganho de massa magra foi menor, mas o ganho de força foi parecido. Pela análise dos autores, um déficit de cerca de 500 kcal por dia já bastou para impedir o ganho de massa magra. A conclusão deles: quem treina para ganhar músculo deve evitar ficar muito tempo em déficit, e quem treina para preservar músculo enquanto emagrece deve evitar déficits acima de 500 kcal por dia.
Perder gordura e ganhar músculo ao mesmo tempo tem nome: recomposição corporal. Uma revisão de 2020 mostra que ela não acontece só em iniciantes ou em pessoas com sobrepeso: há bastante evidência também em pessoas que já treinam, desde que o treino de força seja progressivo e a alimentação siga as evidências, com atenção também ao sono [10].
Superávit: ganhar massa com pouca gordura
Para quem quer ganhar massa, a lógica se inverte, mas o cuidado com o tamanho é o mesmo. Uma revisão sobre fisiculturistas fora da temporada de competição sugere comer cerca de 10% a 20% acima do gasto e buscar um ganho de cerca de 0,25% a 0,5% do peso por semana, com 1,6 a 2,2 g de proteína por kg por dia [11]. Outra revisão sugere começar com cautela, com um superávit de cerca de 1.500 a 2.000 kJ por dia (perto de 360 a 480 kcal), e acompanhar a composição corporal para ajustar [12]. Ela cita um estudo em que homens jovens e magros, depois de 100 dias em superávit, ganharam cerca de 2 kg de gordura para cada 1 kg de massa magra: sobra de energia sem controle vira, em boa parte, gordura.
| Objetivo | Ritmo sugerido | Fonte |
|---|---|---|
| Perder gordura | −0,5% a −1% do peso por semana | Helms 2014 [3] |
| Preservar músculo em déficit | déficit de até cerca de 500 kcal/dia | Murphy e Koehler 2022 [9] |
| Ganhar massa | +0,25% a +0,5% do peso por semana (10% a 20% acima do gasto) | Iraki 2019 [11] |
| Ganhar massa, começo cauteloso | +1.500 a 2.000 kJ/dia (cerca de 360 a 480 kcal) | Slater 2019 [12] |
Sono: o fator esquecido
Num estudo cruzado com 10 adultos com sobrepeso, cada pessoa fez duas vezes 14 dias da mesma dieta com déficit moderado: uma vez com 8,5 horas na cama por noite e outra com 5,5 horas [13]. Com menos sono, a perda de gordura caiu de 1,4 para 0,6 kg e a perda de massa magra subiu de 1,5 para 2,4 kg. As pessoas também sentiram mais fome. Dormir bem faz parte da dieta.
Treino intenso e glicogênio
O glicogênio é o carboidrato guardado nos músculos e no fígado, e é o jeito mais simples de pensar na energia disponível para treinar. Quanto mais intenso o esforço, maior a parte da energia que sai dele: em ciclistas treinados, o carboidrato respondeu por 46% da energia com 44% do VO₂máx e por 76% com 72% do VO₂máx [14]. Na CatLena, esse estoque aparece no cartão Estamina, em % da sua capacidade.
Vários dias seguidos de treino intenso com pouco carboidrato esvaziam o estoque. Num estudo com 7 corredores treinados, a mesma semana de treino intensificado foi feita duas vezes: comendo 5,4 g de carboidrato por kg por dia e comendo 8,5 g/kg. Com menos carboidrato, os 8 km ficaram 155 s mais lentos (61 s com mais carboidrato), os 16 km ficaram 8,2% mais lentos (sem piora com mais carboidrato), a fadiga foi maior e o humor piorou mais [15].
- Treinos de força e de corrida rendem menos com o mesmo esforço, e a sensação é de pernas e braços sem força.
- O cansaço aparece também fora do treino, no trabalho e nas tarefas do dia.
- O humor piora, e fica mais difícil manter a rotina de treinos.
Como a CatLena usa
Em Configurações › Objetivo & metas, você escolhe o objetivo, a rotina do dia a dia e o déficit ou superávit, em kcal sobre o gasto do dia. Ao criar o perfil, o objetivo já sugere as metas: Perda de gordura começa com déficit de 500 kcal e 2 g de proteína por kg; Ganho de massa, com superávit de 300 kcal e 2 g por kg; Manutenção, sem déficit e com 1,6 g por kg. Você pode mudar esses números quando quiser.
Exemplo com o peso e a corrida dos prints abaixo: homem de 35 anos, 1,75 m, 67,4 kg, rotina Moderado (em pé ou caminhando boa parte do dia) e objetivo Perda de gordura.
| Conta | Dia com corrida de 10 km | Dia sem treino |
|---|---|---|
| Basal (Mifflin-St Jeor) | 10 × 67,4 + 6,25 × 175 − 5 × 35 + 5 = 1.598 kcal | 1.598 kcal |
| Base (basal × 1,5) | 2.397 kcal | 2.397 kcal |
| Treino (67,4 × 10 × 1) | 674 kcal | 0 |
| Gasto do dia | 3.071 kcal | 2.397 kcal |
| Meta (gasto − 500) | 2.571 kcal | 1.897 kcal |
| Proteína (67,4 × 2) | 135 g | 135 g |
| Fibra (14 g por 1.000 kcal da meta) | 36 g | 27 g |

- Na tela Alimentação, o bloco Energia mostra o que você comeu, o gasto do dia (base mais treinos) e o saldo, como "déficit" ou "superávit". Aberto, mostra a barra de ingestão com a linha da meta e quanto ainda resta.
- Os blocos de Proteína, Carboidrato, Gordura e Fibra mostram o total do dia contra a meta. A meta de proteína usa o peso registrado para aquele dia; carboidrato e gordura só têm meta se você definir uma.
- As calorias dos treinos vêm do relógio ou do Strava quando existem; senão, são estimadas (veja o artigo sobre calorias do treino).
- Em Métricas, os gráficos de ingestão, gasto e saldo calórico mostram cada dia e o saldo médio do período, e o gráfico de peso mostra a evolução e a média. É ali que você confere se o ritmo está entre 0,5% e 1% por semana e ajusta o déficit.
- Na tela Corpo, o % de gordura separa o peso em massa magra e gordura. Se o peso cai e a massa magra se mantém, a perda está vindo da gordura.
- A estamina mostra se o glicogênio está baixo antes de um treino forte, algo comum em dietas com pouco carboidrato.


Limites
- O gasto do dia é uma estimativa: a equação do basal, o fator da rotina e as calorias dos treinos podem errar para mais ou para menos. A balança é quem confirma: se em duas ou três semanas o peso não segue o ritmo esperado, ajuste o déficit.
- O peso oscila de um dia para o outro com água, sal e glicogênio. Olhe a média e a tendência, não um dia isolado.
- Os estudos citados foram feitos em grupos específicos (atletas de elite, fisiculturistas, homens jovens, pessoas com obesidade grave). Os números servem de guia, não de regra exata para cada pessoa.
Referências
- Mifflin MD, St Jeor ST, Hill LA, Scott BJ, Daugherty SA, Koh YO. A new predictive equation for resting energy expenditure in healthy individuals. American Journal of Clinical Nutrition, 1990;51(2):241–247. Ver o estudo
- Westerterp KR. Diet induced thermogenesis. Nutrition & Metabolism, 2004;1(1):5. Ver o estudo
- Helms ER, Aragon AA, Fitschen PJ. Evidence-based recommendations for natural bodybuilding contest preparation: nutrition and supplementation. Journal of the International Society of Sports Nutrition, 2014;11:20. Ver o estudo
- Garthe I, Raastad T, Refsnes PE, Koivisto A, Sundgot-Borgen J. Effect of two different weight-loss rates on body composition and strength and power-related performance in elite athletes. International Journal of Sport Nutrition and Exercise Metabolism, 2011;21(2):97–104. Ver o estudo
- Fothergill E, Guo J, Howard L, et al. Persistent metabolic adaptation 6 years after "The Biggest Loser" competition. Obesity, 2016;24(8):1612–1619. Ver o estudo
- Mountjoy M, Ackerman KE, Bailey DM, et al. 2023 International Olympic Committee's (IOC) consensus statement on Relative Energy Deficiency in Sport (REDs). British Journal of Sports Medicine, 2023;57(17):1073–1097. Ver o estudo
- Morton RW, Murphy KT, McKellar SR, et al. A systematic review, meta-analysis and meta-regression of the effect of protein supplementation on resistance training-induced gains in muscle mass and strength in healthy adults. British Journal of Sports Medicine, 2018;52(6):376–384. Ver o estudo
- Longland TM, Oikawa SY, Mitchell CJ, Devries MC, Phillips SM. Higher compared with lower dietary protein during an energy deficit combined with intense exercise promotes greater lean mass gain and fat mass loss: a randomized trial. American Journal of Clinical Nutrition, 2016;103(3):738–746. Ver o estudo
- Murphy C, Koehler K. Energy deficiency impairs resistance training gains in lean mass but not strength: a meta-analysis and meta-regression. Scandinavian Journal of Medicine & Science in Sports, 2022;32(1):125–137. Ver o estudo
- Barakat C, Pearson J, Escalante G, Campbell B, De Souza EO. Body recomposition: can trained individuals build muscle and lose fat at the same time? Strength and Conditioning Journal, 2020;42(5):7–21. Ver o estudo
- Iraki J, Fitschen P, Espinar S, Helms E. Nutrition recommendations for bodybuilders in the off-season: a narrative review. Sports, 2019;7(7):154. Ver o estudo
- Slater GJ, Dieter BP, Marsh DJ, Helms ER, Shaw G, Iraki J. Is an energy surplus required to maximize skeletal muscle hypertrophy associated with resistance training. Frontiers in Nutrition, 2019;6:131. Ver o estudo
- Nedeltcheva AV, Kilkus JM, Imperial J, Schoeller DA, Penev PD. Insufficient sleep undermines dietary efforts to reduce adiposity. Annals of Internal Medicine, 2010;153(7):435–441. Ver o estudo
- van Loon LJ, Greenhaff PL, Constantin-Teodosiu D, Saris WH, Wagenmakers AJ. The effects of increasing exercise intensity on muscle fuel utilisation in humans. Journal of Physiology, 2001;536(Pt 1):295–304. Ver o estudo
- Achten J, Halson SL, Moseley L, et al. Higher dietary carbohydrate content during intensified running training results in better maintenance of performance and mood state. Journal of Applied Physiology, 2004;96(4):1331–1340. Ver o estudo
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