Alimentação

Ler o rótulo: adoçantes, glutamato e glúten

Os nomes dos adoçantes e do glutamato no rótulo, a conta do limite de aspartame pelo seu peso e um diário de 14 dias para levar à consulta antes de cortar o glúten.

· 11 min de leitura

Em resumo

  • O limite diário de aspartame é de 40 mg por quilo de peso: um adulto de 70 kg precisaria de 9 a 14 latas de refrigerante por dia para passar dele.
  • Trocar bebida com açúcar por versão com adoçante deixou cerca de 1 kg a menos nos testes; no lugar da água, não mudou o peso.
  • O glutamato aparece como realçador de sabor ou INS 621, e também em ingredientes como extrato de levedura e proteína hidrolisada.
  • Doença celíaca é diagnóstico médico: cortar o glúten antes dos exames pode alterar os resultados.

Algumas palavras do rótulo geram mais dúvida do que deveriam: adoçante, realçador de sabor, glúten. Este guia mostra como cada uma aparece na embalagem, o que os testes em pessoas mostraram e o que levar à consulta quando os sintomas preocupam. Ele não manda tirar nem incluir nenhum alimento.

Adoçante: os nomes no rótulo e a conta do aspartame

A revisão da Organização Mundial da Saúde cita como adoçantes sem açúcar o acesulfame K, o aspartame, o advantame, o ciclamato, o neotame, a sacarina, a sucralose e a estévia [1]. Em produtos de outros países, podem aparecer por código: aspartame é E951, acesulfame K é E950 e sucralose é E955. Sorbitol, xilitol e outros terminados em "ol" são outra categoria, com calorias.

O comitê de especialistas da FAO e da OMS manteve em 2023 o limite diário de 40 mg de aspartame por quilo de peso. No exemplo da OMS, uma lata tem de 200 a 300 mg, e um adulto de 70 kg precisaria passar de 9 a 14 latas por dia para chegar ao limite. No mesmo ano, a agência de câncer da OMS classificou o aspartame como possivelmente cancerígeno, com evidência limitada; essa classificação mede a força da evidência, e não o risco em uma quantidade [2].

Seu pesoLimite de aspartame por dia
50 kg2.000 mg
60 kg2.400 mg
70 kg2.800 mg
80 kg3.200 mg
90 kg3.600 mg

A pergunta mais útil é: no lugar de quê? Trocar refrigerante ou suco com açúcar por versão com adoçante deixou cerca de 1 kg a menos nos testes [3][4], análises cujos autores declaram ligações com a indústria. No lugar da água, o adoçante não mudou o peso, e quem já bebe água não tem motivo para adoçar. Os testes duram pouco; estudos longos associam o uso a mais diabetes e doença cardiovascular [5], sem saber se o adoçante causa isso ou se quem já tinha mais risco passou a usá-lo [1].

Glutamato no rótulo e no prato

O glutamato dá o gosto chamado umami, de caldo e de carne. No Brasil, aparece como realçador de sabor, glutamato monossódico ou de sódio, ou pelo número INS 621 [13]. Também chega por ingredientes como proteína vegetal hidrolisada, levedura autolisada, extrato de levedura, extratos de soja, molho de soja, tomates e queijos [10][11].

O medo começou com uma carta de 1968 que citava sal, vinho e glutamato como possíveis causas de mal-estar depois de pratos chineses [6], e com injeções de glutamato em camundongos recém-nascidos, que não equivalem a comer o tempero [7]. Em 130 pessoas que diziam reagir, 38,5% tiveram sintomas só com 5 g de glutamato sem comida e 13,1% só com a bebida sem ele, e a resposta não se repetiu de forma consistente [8]. Com comida, só 1 de 6 estudos viu diferença em dor de cabeça [9].

QuantidadeValor
Glutamato das proteínas da comidaCerca de 13 g por dia
Glutamato adicionado, em médiaCerca de 0,55 g por dia
Porção típica com glutamato adicionadoMenos de 0,5 g
Limite europeu do adicionado30 mg por quilo, 2,1 g para 70 kg

Sintomas leves e passageiros foram descritos em pessoas sensíveis com 3 g ou mais, sem comida [10]. O limite europeu é contestado por uma revisão que defende avaliar o glutamato primeiro como nutriente [12]. Olhe também o sódio da tabela: o glutamato monossódico tem 12,28 g de sódio em 100 g, contra 39,34 g do sal comum.

Antes de cortar o glúten: diário de 14 dias

A doença celíaca é uma resposta imune permanente ao glúten de trigo, cevada e centeio, diagnosticada com exame de sangue e, na maioria dos casos, biópsia do intestino [14]; cerca de 0,7% das pessoas no mundo têm o diagnóstico confirmado [15]. Os médicos não recomendam começar uma alimentação sem glúten antes dos exames, porque ela pode alterar os resultados [19].

Cerca de 10% dos adultos relatam sensibilidade ao glúten ou ao trigo, e nos testes às cegas de 16% a 30% dessas pessoas têm sintomas causados especificamente pelo glúten, sem exame que confirme [16]. Em 10 testes, 38 de 231 pessoas com suspeita tiveram sintomas específicos do glúten [17], e em 59 adultos os sintomas foram maiores com frutano, um carboidrato do trigo, do que com glúten [18].

Por 14 dias, sem mudar a alimentação, anote uma linha por refeição. Exemplo:

Dia e horaO que comeuSintoma (0 a 10)Outros fatores
Seg, 13hMacarrão com molhoInchaço, 4Noite mal dormida
Seg, 20hArroz, feijão e frangoNenhum
Ter, 8hPão com ovoNenhumCafé antes
  • Pelos meus sintomas, devo fazer os exames para doença celíaca?
  • Como devo me alimentar até fazer os exames?
  • Já retirei o glúten por um tempo. Isso muda o que devemos fazer?
  • Há outras causas a investigar, como alergia ao trigo ou intestino irritável?
  • Se os exames derem normais, o que fazemos com os sintomas anotados?
  • Faz sentido contar com um nutricionista para ajustar a alimentação?

Como a CatLena usa

Ao registrar uma refeição, cada item aparece com calorias, proteína, carboidrato, gordura e fibra, e o link Fontes dos valores mostra de onde vem cada número. No exemplo abaixo, um lanche com 1 maçã e 15 g de castanha-do-pará somou 170 kcal. O registro do dia também serve de diário para levar à consulta.

Tela de edição de refeição do app com maçã e castanha-do-pará, total de 170 kcal e o link Fontes dos valores
Refeição: cada item com os nutrientes e o link para as fontes dos valores.

Quando procurar um profissional

Referências

  1. Rios-Leyvraz M, Montez J. Health effects of the use of non-sugar sweeteners: a systematic review and meta-analysis. Geneva: World Health Organization, 2022. Ver o estudo
  2. World Health Organization. Aspartame hazard and risk assessment results released. Geneva: WHO, 2023. Ver o estudo
  3. Rogers PJ, Appleton KM. The effects of low-calorie sweeteners on energy intake and body weight: a systematic review and meta-analyses of sustained intervention studies. International journal of obesity (2005), 2021;45(3):464-478. Ver o estudo
  4. McGlynn ND, Khan TA, Wang L, Zhang R, Chiavaroli L, Au-Yeung F, et al. Association of Low- and No-Calorie Sweetened Beverages as a Replacement for Sugar-Sweetened Beverages With Body Weight and Cardiometabolic Risk: A Systematic Review and Meta-analysis. JAMA network open, 2022;5(3):e222092. Ver o estudo
  5. Debras C, Chazelas E, Srour B, Druesne-Pecollo N, Esseddik Y, Szabo de Edelenyi F, et al. Artificial sweeteners and cancer risk: Results from the NutriNet-Santé population-based cohort study. PLoS medicine, 2022;19(3):e1003950. Ver o estudo
  6. Kwok RH. Chinese-restaurant syndrome. The New England journal of medicine, 1968;278(14):796. Ver o estudo
  7. Olney JW. Brain lesions, obesity, and other disturbances in mice treated with monosodium glutamate. Science (New York, N.Y.), 1969;164(3880):719-21. Ver o estudo
  8. Geha RS, Beiser A, Ren C, Patterson R, Greenberger PA, Grammer LC, et al. Multicenter, double-blind, placebo-controlled, multiple-challenge evaluation of reported reactions to monosodium glutamate. The Journal of allergy and clinical immunology, 2000;106(5):973-80. Ver o estudo
  9. Obayashi Y, Nagamura Y. Does monosodium glutamate really cause headache? : a systematic review of human studies. The journal of headache and pain, 2016;17:54. Ver o estudo
  10. U.S. Food and Drug Administration. Questions and answers on monosodium glutamate (MSG). Ver o estudo
  11. European Food Safety Authority. Glutamate and glutamic acid: re-evaluation of their safety as food additives, 2017. Ver o estudo
  12. Loï C, Cynober L. Glutamate: A Safe Nutrient, Not Just a Simple Additive. Annals of nutrition & metabolism, 2022;78(3):133-146. Ver o estudo
  13. Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Resolução RDC nº 272, de 14 de março de 2019. Ver o estudo
  14. Rubio-Tapia A, Hill ID, Semrad C, Kelly CP, Greer KB, Limketkai BN, et al. American College of Gastroenterology Guidelines Update: Diagnosis and Management of Celiac Disease. The American journal of gastroenterology, 2023;118(1):59-76. Ver o estudo
  15. Singh P, Arora A, Strand TA, Leffler DA, Catassi C, Green PH, et al. Global Prevalence of Celiac Disease: Systematic Review and Meta-analysis. Clinical gastroenterology and hepatology : the official clinical practice journal of the American Gastroenterological Association, 2018;16(6):823-836.e2. Ver o estudo
  16. Biesiekierski JR, Jonkers D, Ciacci C, Aziz I. Non-coeliac gluten sensitivity. Lancet (London, England), 2025;406(10518):2494-2508. Ver o estudo
  17. Molina-Infante J, Carroccio A. Suspected Nonceliac Gluten Sensitivity Confirmed in Few Patients After Gluten Challenge in Double-Blind, Placebo-Controlled Trials. Clinical gastroenterology and hepatology : the official clinical practice journal of the American Gastroenterological Association, 2017;15(3):339-348. Ver o estudo
  18. Skodje GI, Sarna VK, Minelle IH, Rolfsen KL, Muir JG, Gibson PR, et al. Fructan, Rather Than Gluten, Induces Symptoms in Patients With Self-Reported Non-Celiac Gluten Sensitivity. Gastroenterology, 2018;154(3):529-539.e2. Ver o estudo
  19. National Institute of Diabetes and Digestive and Kidney Diseases. Diagnosis of celiac disease. Ver o estudo

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Autor: · Publicado em: 4 de novembro de 2026

Como citar: Equipe CatLena. Ler o rótulo: adoçantes, glutamato e glúten. CatLena [Internet]. 4 nov. 2026. Disponível em: https://catlena.com/pt/articles/food-labels