Corrida
Treinos de corrida: ritmo leve, intervalado, volume da semana e caderno de treino
O teste da fala para achar o ritmo leve, um primeiro treino intervalado, quantos quilômetros correr por semana para cada prova e o que anotar depois de cada treino.
· 11 min de leitura
Em resumo
- Corredores de nível mundial fizeram 87% dos quilômetros em ritmo leve; o teste da fala mostra esse ritmo sem relógio.
- Séries de 4 minutos fortes com 3 minutos leves aumentaram o fôlego, e o treino contínuo também funciona.
- Amadores de maratona faziam em torno de 40 km por semana; uma corrida muito acima da mais longa do mês esteve ligada a mais lesões.
- Anotar tempo, distância, esforço e sono em cada treino ajuda a ver o que funciona na sua semana.
Uma semana de corrida bem montada mistura ritmos diferentes, sobe o volume aos poucos e deixa um registro do que foi feito. Este guia reúne o que os estudos mostram sobre o ritmo leve, o treino intervalado, o volume semanal para cada prova e o hábito de anotar os treinos, com modelos para usar a partir da próxima semana.
Corrida leve: o teste da fala e um modelo de semana
Quando pesquisadores acompanharam 7 corredores de nível mundial por 50 semanas, 87% dos quilômetros foram feitos em ritmo leve [1]. O teste da fala ajuda a reconhecer esse ritmo sem relógio: em 16 pessoas ativas que correram 30 minutos guiadas só pela fala, todas completaram a corrida no nível em que falavam com conforto, 13 no nível de dúvida e só 2 no nível em que já não conseguiam falar [2].
- Depois de 5 a 10 minutos correndo, diga em voz alta uma frase inteira, de duas ou três linhas.
- Se falar com conforto, o ritmo está leve. Se houver dúvida, o ritmo já é médio. Se não conseguir, está forte.
- Repita no meio e perto do fim; é normal precisar diminuir com o passar do tempo, principalmente no calor.
| Corrida | Como fazer |
|---|---|
| 1, leve | 30 a 40 min falando com conforto do início ao fim |
| 2, com trechos fortes | 10 min leves, 4 × 2 min fortes com 3 min de trote, 10 min leves |
| 3, leve e mais longa | O tempo da corrida 1 mais 10 a 15 min |
A divisão 80/20 é um apelido, não uma conta exata: em 8 corredores de alto nível, cerca de 71% do tempo foi leve [3]. Em amadores, 77% ou 46% do tempo em ritmo leve melhoraram os 10 km em 5% e 3,6%, diferença que pode ter sido acaso [4], e uma análise de 13 estudos com 348 atletas não encontrou diferença no tempo de prova entre as divisões [5]. Quem está começando pode fazer as 3 corridas leves por algumas semanas, alternando corrida e caminhada.
Primeiro treino intervalado: 4 séries de 4 minutos
Em 40 homens treinados, 8 semanas com 4 séries de 4 minutos fortes e 3 minutos leves entre elas, 3 vezes por semana, aumentaram mais o consumo máximo de oxigênio do que o treino contínuo com o mesmo gasto [6]. Uma revisão de 28 estudos com 723 adultos encontrou ganhos grandes nos dois tipos de treino, com vantagem pequena para o intervalado [7]. Os dois caminhos funcionam, e a maior parte da semana pode continuar leve [4].
| Parte | Duração | Ritmo |
|---|---|---|
| Aquecimento | 10 min | Caminhada ou trote leve |
| Série | 4 min | Forte: só poucas palavras |
| Recuperação | 3 min | Trote ou caminhada |
| Repetir | Até 4 séries | Começar com 2 |
| Volta à calma | 5 min | Caminhada ou trote leve |
Antes de incluir séries fortes, construa a base de 30 minutos de corrida sem parar. No início, faça 1 sessão intervalada por semana e mantenha os outros treinos leves. O estudo original usou 90% a 95% da frequência cardíaca máxima; a sugestão para começar é mais modesta.
Quanto correr por semana em cada prova
Corredores de nível mundial fazem de 11 a 14 treinos por semana no meio da preparação, com pelo menos 80% do volume em intensidade baixa [8]. Entre 997 amadores holandeses, com cerca de 3 treinos por semana, o típico da meia maratona fazia 26 km e o da maratona, 40 km. Mais volume esteve associado a tempos melhores, e uma corrida longa abaixo de 25 km esteve associada a tempo pior na maratona [9]. Na Maratona de Boston, a média foi de 64 a 68 km por semana [10].
| Prova | Amadores | Elite |
|---|---|---|
| 5 km | 15 a 25 km (sugestão) | 130 a 190 km |
| 10 km | 20 a 35 km (sugestão) | 130 a 190 km |
| Meia maratona | 26 km (20 a 40 km) | Sem dado próprio |
| Maratona | 40 km (30 a 50 km) | 160 a 220 km |
As faixas de 5 km e 10 km para amadores são um ponto de partida nosso e não vêm de estudo. Para subir, a famosa regra dos 10% por semana não reduziu lesões em 532 iniciantes [11], e aumentos acima de 30% em duas semanas tiveram mais lesões em um estudo exploratório [12]. O que mais pesou foi uma única corrida longa demais: entre 5.205 corredores, correr de 10% a 30% acima da mais longa dos últimos 30 dias esteve associado a 64% mais lesões, e mais que o dobro, a 128% [13]. A evidência sobre mudanças bruscas de carga ainda é limitada [14].
- Some os quilômetros das últimas 4 semanas e divida por 4: esse é o seu ponto de partida.
- Anote a corrida mais longa dos últimos 30 dias e evite uma corrida muito acima dela.
- Se a dor mudar a sua forma de correr, reduza e procure um profissional de saúde.
Caderno de treino: o que anotar e como ler
Eliud Kipchoge guarda cadernos de treino desde 2003 e anota tempo, quilômetros, massagem, exercícios, o tênis usado e o que sentiu [15]. O hábito não depende do ritmo dele: uma folha e um minuto depois do treino bastam. Em uma pesquisa com 1.022 maratonistas amadores, o tempo mediano foi de 3:28 nos homens e de 3:54 nas mulheres, com cerca de 64 km de treino por semana [16]; ter os próprios números anotados é o que permite comparar uma semana com a outra.
Exemplo de semana anotada:
| Dia | Treino | Esforço (0 a 10) | Sono |
|---|---|---|---|
| Ter | Leve, 6 km em 33 min | 3 | 7 h |
| Qui | 4 × 4 min fortes | 8 | 6 h |
| Sáb | Leve longo, 10 km | 5 | 8 h |
- No fim da semana, some os quilômetros ou o tempo.
- Veja se os dias fortes e os leves se alternaram.
- Procure repetições: dor sempre com o mesmo tênis, treino ruim depois de noite curta.
- Mude uma coisa só na semana seguinte.
Como a CatLena usa
Na tela Treino, cada corrida fica com distância, tempo e ritmo, ao lado dos treinos de força. No exemplo abaixo, a rodagem leve de sexta-feira teve 6 km em 33 minutos, a 5:30 por quilômetro. Com as corridas registradas, a soma da semana e a corrida mais longa dos últimos 30 dias ficam à vista, o que ajuda a aplicar as regras de volume acima.

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Referências
- Kenneally M, Casado A, Gomez-Ezeiza J, Santos-Concejero J. Training intensity distribution analysis by race pace vs. physiological approach in world-class middle- and long-distance runners. European journal of sport science, 2021;21(6):819-826. Ver o estudo
- Woltmann ML, Foster C, Porcari JP, Camic CL, Dodge C, Haible S, et al. Evidence that the talk test can be used to regulate exercise intensity. Journal of strength and conditioning research, 2015;29(5):1248-54. Ver o estudo
- Esteve-Lanao J, San Juan AF, Earnest CP, Foster C, Lucia A. How do endurance runners actually train? Relationship with competition performance. Medicine and science in sports and exercise, 2005;37(3):496-504. Ver o estudo
- Muñoz I, Seiler S, Bautista J, España J, Larumbe E, Esteve-Lanao J. Does polarized training improve performance in recreational runners?. International journal of sports physiology and performance, 2014;9(2):265-72. Ver o estudo
- Rosenblat MA, Watt JA, Arnold JI, Treff G, Sandbakk ØB, Esteve-Lanao J, et al. Which Training Intensity Distribution Intervention will Produce the Greatest Improvements in Maximal Oxygen Uptake and Time-Trial Performance in Endurance Athletes? A Systematic Review and Network Meta-analysis of Individual Participant Data. Sports medicine (Auckland, N.Z.), 2025;55(3):655-673. Ver o estudo
- Helgerud J, Høydal K, Wang E, Karlsen T, Berg P, Bjerkaas M, et al. Aerobic high-intensity intervals improve VO2max more than moderate training. Medicine and science in sports and exercise, 2007;39(4):665-71. Ver o estudo
- Milanović Z, Sporiš G, Weston M. Effectiveness of High-Intensity Interval Training (HIT) and Continuous Endurance Training for VO2max Improvements: A Systematic Review and Meta-Analysis of Controlled Trials. Sports medicine (Auckland, N.Z.), 2015;45(10):1469-81. Ver o estudo
- Haugen T, Sandbakk Ø, Seiler S, Tønnessen E. The Training Characteristics of World-Class Distance Runners: An Integration of Scientific Literature and Results-Proven Practice. Sports medicine - open, 2022;8(1):46. Ver o estudo
- Fokkema T, van Damme AADN, Fornerod MWJ, de Vos RJ, Bierma-Zeinstra SMA, van Middelkoop M. Training for a (half-)marathon: Training volume and longest endurance run related to performance and running injuries. Scandinavian journal of medicine & science in sports, 2020;30(9):1692-1704. Ver o estudo
- DeJong Lempke AF, Ackerman KE, Stellingwerff T, Burke LM, Baggish AL, d’Hemecourt PA, et al. Training Volume and Training Frequency Changes Associated with Boston Marathon Race Performance. Sports medicine (Auckland, N.Z.), 2026;56(1):243-256. Ver o estudo
- Buist I, Bredeweg SW, van Mechelen W, Lemmink KA, Pepping GJ, Diercks RL. No effect of a graded training program on the number of running-related injuries in novice runners: a randomized controlled trial. The American journal of sports medicine, 2008;36(1):33-9. Ver o estudo
- Nielsen RØ, Parner ET, Nohr EA, Sørensen H, Lind M, Rasmussen S. Excessive progression in weekly running distance and risk of running-related injuries: an association which varies according to type of injury. The Journal of orthopaedic and sports physical therapy, 2014;44(10):739-47. Ver o estudo
- Schuster Brandt Frandsen J, Hulme A, Parner ET, Møller M, Lindman I, Abrahamson J, et al. How much running is too much? Identifying high-risk running sessions in a 5200-person cohort study. British journal of sports medicine, 2025;59(17):1203-1210. Ver o estudo
- Damsted C, Glad S, Nielsen RO, Sørensen H, Malisoux L. IS THERE EVIDENCE FOR AN ASSOCIATION BETWEEN CHANGES IN TRAINING LOAD AND RUNNING-RELATED INJURIES? A SYSTEMATIC REVIEW. International journal of sports physical therapy, 2018;13(6):931-942. Ver o estudo
- Outside. Eliud Kipchoge’s marathon workout and training principles. Outside Online, 2021. Ver o estudo
- Vickers AJ, Vertosick EA. An empirical study of race times in recreational endurance runners. BMC sports science, medicine & rehabilitation, 2016;8(1):26. Ver o estudo
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